Brasileiras se vestindo no exterior

Para aqueles que acompanham o blog (muito obrigada!) sabem que eu recebi a visita da minha mãe. Além de matar a saudade, poder comer a comidinha da Mami e passar bons momentos juntas, a visita dela direcionou meu olhar para certos aspectos da vida na Alemanha que, depois de tanto tempo morando aqui, talvez já sejam normais para mim. Na verdade, sempre sinto isso quando recebo visitas de fora da Alemanha.

Pouco antes da chegada de Mami nas terras germânicas, tinha recebido um comentário da leitora Maria Claudia (beijos pra você!) citando a questão da roupa das brasileiras no exterior. Prometi escrever um post sobre isso e agora realizo a promessa.

Decotes e fendas

Sabe o osso da clavícula? Então, ponha a mão fechada abaixo dele: aí que para o decote alemão, não importa o formato. Para a maior parte das atividades, esse tamanho de decote é considerado decente. Decotes que mostrem a curva dos seios, mesmo que só o início, são vistos como exibicionistas e provocantes. Portanto nem pensar em usar em ambiente de trabalho, apresentações de palestras ou reuniões com a família dele.
Não significa que os alemães não gostem. Eles olham, muito discretamente e às vezes sai até um comentário do tipo: ‘Que blusa bonita!’ Entenda-se nas entrelinhas da língua de Goethe: ‘Gostei do decote’.
Já da parte das alemãs a situação é outra. Algumas fazem o tipo ‘não tô nem aí, ela que faça o que bem quiser do decote dela’. Outras acham desnecessário um decote mais profundo e fazem comentários que vão da pontinha de inveja por não ter coragem de fazer o mesmo até comentários maldosos. O que vale para os decotes também vale para as fendas.

E se alguém acha que estou exagerando, basta relembrar aqui o caso da própria chanceler alemã, Angela Merkel. Em 2008, na abertura da nova Ópera National de Oslo, na Noruega, a chanceler apareceu num vestido de gala preto com um decote bem fundo. Pronto! Foi como fogo num palheiro! Discutiu-se muito se uma chanceler deveria usar um decote daquele tamanho, se aquilo era decente para uma mulher pública e muito mais.

Muito justo, muito curto

„Weisser Schwartenmagen“ von Schorle at de.wikipedia. Lizenziert unter CC BY-SA 3.0 über Wikimedia Commons

Presswurst | „Weisser Schwartenmagen“ von Schorle at de.wikipedia. Lizenziert unter CC BY-SA 3.0 über Wikimedia Commons

 

Se for uma adolescente até passa, mas depois de passada essa fase, muito curto e muito justo tornam-se sinônimos de mal gosto. Não raro as mulheres que gostam de roupas nas quais elas parecem que foram embaladas à vácuo são chamadas de Presswurst.

Aquele jeans cravado que divide completamente a banda A da banda B ou, pior ainda, evidencia o capô de Fusca é simplesmente combatido e criticado por aqui.

Coador de café

Especialmente na antiga parte Oriental, as pessoas ficam peladas nas praias e nos lagos sem nenhum problema. Ninguém faz escândalo ou fica olhando que nem bobo por causa de um par de seios fazendo topless. No entanto, os biquinis são grandes. A parte debaixo é semelhante a um coador de café: grande, feio, frouxo. Então qualquer biquini que mostre um pouco mais que a polpinha do bumbum, o povo já desconfia que a mulher não seja alemã. Fio dental é inexistente.

Mas e a brasileira com isso?

Agora vai você brasileira botar um decote mais profundo ou uma fenda mais ousada! Experimente andar com um jeans apertadinho! Não estou falando aqui dos casos extremos e entenda que não estou fazendo julgamento de valor estético. O negócio aqui é outro. Vou contar um caso e mais uma vez, não estou exagerando.
Em 2006, durante uma mesa de debate sobre filmes brasileiros na Berlinale, uma professora universitária (!) reduziu o talento de uma cineasta brasileira, dizendo que ela conquistou a simpatia do público com o decote e caras e bocas. Maldade pura! Não sei se ela falaria com tanto desdém se fosse uma cineasta alemã.
Deu para captar? É utilizar estereótipos para limitar e desvalorizar a mulher brasileira. Podem até não expressar verbalmente, mas vai ter gente nivelando você pelos clichês de mulher fácil, vulgar e vagabunda.

Como faz então?

Bem, para quem gosta de decotão, jeans bem justo, roupas curtas e/ou coladas é bom lembrar que querendo ou não a pessoa vai se adaptando sim ao estilo alemão; a não ser que ela sinta-se muito à vontade sendo alvo de olhares maldosos, risinhos e comentários venenosos.
E no dia que você, brasileira, quer dar uma pitada de ousadia no seu visual, você se arma de muita confiança e força para mostrar que não é a roupa que vai definir o que você é. E boa sorte!

14 Responses to “Brasileiras se vestindo no exterior

  • Lu,
    Primeiro acesso aqui e adorei: o tema, a escrita, as descrições. Os gringos os quais já trabalhei sempre faziam comentários do tipo, que as brasileiras se vestem exatamente do jeito que a Alemanha odeia, mas que eles amam!

    Passarei a segui-la!
    Beijos,
    Aline.

    euvoupralgumlugar.com.br

  • Oi, Aline
    Tudo bem? Obrigada pela visita 🙂

    Não sei, mas na minha humilde opinião para tudo tem um limite. O limite entre sensual e vulgar é muito tênue e quem nunca errou na mão que atire a primeira pedra, né? 😉

    Acho que os gringos gostam sim de ver uma roupa mais sensual, seja nas suas conterrâneas ou nas brasileiras. Agora vulgar, eles gostam de olhar e depois criticar…

    Beijo grande!

  • AH COMO AMO ESSE BLOG! <3 Mais um tema interessantíssimo! Obrigada pelas dicas, Lu. <3

  • Luuuuuu! Como vai?

    Poxa que legal você ter lembrado… obrigada, foi muito esclarecedor.
    Acompanhei seus 2 últimos posts, mas só li no e-mail, porque se eu clico pra comentar … ai ai ai, já quero ler outras coisas e não saio mais daqui rsrrss, tô numa correria danada com meu TCC entre outras coisas, mas enfim, deixa quieto.

    Não sei não Lu, antes de mais nada, não gosto de roupas me apertando (socada), principalmente calça (ri muito com a divisão da banda A e B), mas sei lá, aqui até o clima é propício, é calor o ano inteiro, então de um modo geral o decote rola solto, por outro lado os alemães não estão acostumados, estão sempre encapuzados dos pés a cabeça. Claro que tem muita coisa bizarra e de mal gosto, mas acho que rola uma certa implicância principalmente por parte das mulheres, uma certa invejinha eu acho. O mesmo mau gosto que eles veem num fio dental eu vejo numa calçola de vovó, especialmente na praia, então acho que é algo cultural e climático mesmo rsrsrs. Pra você ter uma ideia, estamos no inverno, mas ontem parecia verão aqui em São Paulo e hoje está a mesma coisa.
    No fim das contas, tirando as extravagancias, tudo tem os 2 lados da moeda, o ideal é se adaptar as situações e deixar o botãozinho do bom senso ligado o tempo inteiro.

    Bjão Lu e ótimo fim de semana.

  • Obrigada, Tati! Que bom que você gostou 🙂

  • Lu, nunca reparei nisso aqui… rsrsrsr
    ando com jeans justo, mas aço que alemãs também, pois quando vou comprar calça aqui os modelos são todos justos, estranho né?! rs
    E que delicia a maezona ai com você, bom demais isso né?
    um beijo grande flor

  • Época de TCC é mesmo uma correria! Fico feliz que tenha encontrado um tempinho para comentar aqui 🙂 Muito obrigada!

    O clima é um fator importante sim. Quanto bate o vento siberiano por aqui, não dá para deixar nenhum pedacinho de pele de fora kkkk.

    Não quis nem quero entrar na questão do gosto ou da elegância. É pessoal demais! Só quis mesmo dar uma ideia de como decotes, fendas e roupas arrochadas são vistas aqui e como essa visão pode mudar dependendo da nacionalidade de quem vê e de quem está usando a roupa 😉

    Beijo grande e boa semana!

  • Oi, Ana!

    O período com a Mami aqui foi muito bom mesmo! Mas acabou, né? 🙁

    Concordo com você que aqui também usam roupas justas. A moda do jeans skinny, legging, jegging, etc é um fato. São roupas justas, porém não agarradas na pele rachando tudo kkkk Quase explodindo as costuras! Acho que essa é uma pequena diferença básica 😉

    Beijo grande!

  • Lu,

    entao te pergunto, quais sao as tendencias por aqui?
    to tendo dificuldade nessa parte rs
    Digo roupa para sair, para ir no bar da esquina, para o dia a dia etc

    beijos

  • Mari,
    que pergunta difícil! Vamos por partes!

    Em Berlin, por exemplo, você pode sair do jeito que você quiser kkkk Sério! Tipo: nada combinando com porra nenhuma e você pode ainda assim fazer sucesso. Tudo depende do meio onde você está 😉

    De uma forma geral, não vejo uma separação muito clara entre roupa para sair, ir ao boteco ou à universidade. Acho que as pessoas se prendem mais à questão de estilo. Claro que um vestido longo de paetês para ir a padaria é estranho, mas se você soubesse o que eu já vi nesta cidade…

    Menina, acho que já tá até valendo um post kkkk

    Beijo grande!

  • Fernanda Uberlandia
    3 anos ago

    Bom saber… Assim não pago mico quando for á Alemanha! Continueeee postando!!!!!!

  • Que bom que foi útil, Fernanda! Pode deixar que vou postar mais 😉
    Um abraço!

  • Engraçado isso do decote, pois nos anúncios do Oktorfest, vemos sempre aquelas alemãs de trajes típicos, com os "melões" de fora. Achei que fosse normal usarem decotes profundos. Agora, já sei que não é!

  • Oi, Cristina!
    É verdade, o decote do Dirndl espreme, levanta e quase salta tudo pra fora. Mas Oktoberfest – assim como carnaval – não é um dia normal e principalmente, não é ambiente formal.
    Para os dias muito normais de trabalho, estudo e visita à família é melhor não abusar 😉
    Um grande abraço!

Deixe uma resposta para Cristina Sousa Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *