Páscoa medieval

Chorin

Caminho pela floresta em Chorin

Sabe-se que antes da cristianização, os povos que habitavam a Europa tinham costumes para celebrar a passagem das estações. A primavera era festejada com muita alegria, pois era a volta da luz e da vida. Veja bem: se em pleno século XXI com todas as facilidades que temos o povo não está mais aguentando com o frio prolongado e a falta de sol, dá para imaginar o que representava a chegada da primavera para o homem lá pelos séculos VI ou VII.

Isso é só para dizer que no último fim de semana fui a um festival de Páscoa em estilo medieval. Foi interessante, especialmente este ano devido ao inverno que não está deixando espaço para a primavera. Tudo se passa numa pequena cidade ao norte de Berlin, chamada Chorin. Lá é montada uma aldeia medieval onde acontece a Oster-Kloster-Fest. 

É o nome da trupe que está em atividade desde 1981, fazendo shows de música e teatro medievais. Na metade da década de 80, teve início as primeiras feiras e festas medievais organizadas pelo grupo.

Oster-Kloster-Fest

Spilwut: Oster-Kloster-Fest

Seguindo a tradição medieval, os artistas se apresentam em vários palcos – alguns improvisados –, mudando de papéis e se misturando no meio do público. O narrador funciona como um contador de história que vai guiando o público, mas é ele também que organiza e marca o ritmo da peça. Entre as barracas do mercado, pode aparecer um contorcionista, um engolidor de fogo ou quem sabe um trovador solitário dedilhando seu alaúde.

O mercado

A ideia é oferecer só produtos feitos de forma artesanal (ou quase). É possível participar de algumas oficinas oferecidas pelos artesãos e, por exemplo, fazer uma xilogravura ou pequenos objetos de prata e de zinco.
Met

Met quentinho e espumante

Não poderia faltar, é claro, as barracas com comidas e bebidas. Particularmente, gosto de Met, uma bebida consumida desde a antiguidade e também conhecida como Honigwein, ou hidromel. A bebida é geralmente servida quente e é ótimo para esquentar, mas é preciso ir devagar no consumo, pois ela pode ter um teor alcoólico de até 20%. Na mitologia germânica e nórdica, Met era conhecido como uma bebida sagrada. Não raro foram atribuídos poderes medicinais à bebida.

Experimentei dessa vez uns bolinhos de amêndoas feito sem leite e sem farinha. Os bolinhos seguem receita medieval utilizada nos conventos italianos. Provei três tipos diferentes e achei todos bem gostosos.

A diversão não fica de fora. Crianças e adultos podem treinar suas habilidades atirando com arco e flecha ou lançando machadinhas. Se precisasse defender minha vida atirando machadinhas, acho que morreria nas mãos do inimigo. Não consegui prender nenhuma das seis machadinhas na madeira. Tive mais sorte no arco e flecha… Mesmo assim foi bem engraçado.

O dragão

Drachen

Brachiläus Rammdorn, o dragão da festa

O ponto alto da festa é a saga do dragão Brachiläus Rammdorn. Ele tem 10m de comprimento e cerca de 4m de altura. Ele anda pelo local soltando fumaça pela boca. Na história, o dragão é apresentado de forma positiva, de forma que no final o público se aproxime do ‘animal’. Algumas crianças mais atiradas só faltam subir no dragão; outras, nem no colo dos pais se arriscam a chegar perto.

No final da tarde, o dragão volta para participar de Winteraustreiben, um ritual de despedida do inverno. Na encenação há uma luta da primavera contra o inverno, da luz contra a escuridão, da vida contra a morte. No final a primavera ganha. Bem, debaixo da neve toda que estava caindo, a encenação ficou bem realista. O público estava animado gritando em coro para o inverno ir embora. Sob muitos aplausos, um boneco de palha representando o inverno é queimado na fogueira.
Meio a tantos costumes anteriores à cristianização, o grupo encena a vida e a paixão de Cristo, mostrando como tradições diferentes podem ter convivido paralelamente. A encenação é feita em dois dias. No primeiro, é contada a vida e os milagres de Cristo até o Domingo de Ramos. O segundo dia é dedicado à paixão.
Paixão de Cristo

Encenação da Paixão de Cristo

Roupas e acessórios

Não só o pessoal que trabalha na festa, mas também muitos visitantes vão vestidos em estilo medieval.  As roupas são feitas de linho e lã. Algumas peças são confeccionadas em couro. Quem tem tempo e paciência costura as peças à mão. Não raro é possível ver pessoas com sapatos de madeira.

Carteira? Isso é coisa moderna. O dinheiro vai guardado literalmente dentro de um Geldbeutel, um saquinho de dinheiro. Esse saquinho é preso ao cinto junto com outros importantes utensílios, como faca, chifre de beber e pedra para fazer fogo. Tem ainda muitos cavaleiros medievais andando pela festa com cotas de malha, espadas, elmos e escudos.

Próximas apresentações

ovos pintados à mão

Tradicionais ovos pintados

Festas medievais podem ser visitadas praticamente o ano inteiro na Alemanha. Espetáculo de Páscoa do grupo Spilwut só no próximo ano, mas já fica a dica aqui. A viagem de trem da estação central de Berlin até Chorin dura cerca de 45 minutos.

O grupo tem apresentações marcadas para junho em Lutherstadt Wittenberg e para setembro em Spandau.
E sua Páscoa? Como foi?

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