Assédio ou não?

No momento, o grande tema nos meios de comunicação na Alemanha é a acusação de assédio sexual da qual Rainer Brüderle, político do FDP (partido liberal alemão), tornou-se alvo.
 
No dia 5 de janeiro de 2012, durante uma festividade do seu partido em Stuttgart, ele teria numa  conversa com a jornalista da revista Stern, Laura Himmelreich, passado dos limites. Segundo a jornalista, o político não teria tirado os olhos do decote dela. 

Dirndl - Fesche Sennerin beim Fensterln - Ja wo bleibt er denn

Recheio de dirndl, segundo o político CC BY-NC-ND 2.0: Traveller_40

Num dado momento, ele disse à jornalista que ela podia ‘rechear’ bem um Dirndl… Ainda rolou um beijo na mão com pedido para que passassem ‘mais tempo juntos’. 

Para alguns, a história não passa de sensacionalismo, pois a jornalista só trouxe o caso à imprensa um ano após o ocorrido. Brüderle, que foi apresentado como a nova cara de seu partido, é candidato ao parlamento alemão nas eleições de setembro deste ano. A jornalista afirmou que era o momento certo para mostrar que a nova cara estava marcada por velhos clichés. 

Outros acham que o fato é mais importante que a data que o público tomou conhecimento.  Afinal, um político que não resiste a uma jovem jornalista e passa uma cantada desse nível teria as qualidades exigidas para ocupar uma posição de comando? 


Independente de quem tenha razão, a situação acendeu o debate sobre assédio sexual e violência contra mulher. No Twitter, o hashtag #Aufschrei (algo como ‘botar a boca no trombone’, em português), esteve no topo dos assuntos do momento. E os casos de assédio diário não param de pipocar nos meios de comunicação. Agora uma redatora da revista Spiegel revela os ataques verbais de baixo calão de alguns políticos do Piratenpartei (Partido Pirata) que chegaram a chamá-la de prostituta no Twitter.

Der Herrenwitz

Foi o que fez o político do Partido Liberal. Não existe em português uma palavra equivalente. Ao pé da letra, seria uma piada de homem. São aquelas piadinhas grosseiras, infames e obscenas sobre mulheres que alguns homens fazem, especialmente, quando estão entre eles. Muitas vezes as piadinhas são feitas em voz alta para uma ‘plateia’, no intuito de deixar a pessoa constrangida.

Mulheres na Alemanha

Homens e mulheres têm os mesmos direitos garantidos pela constiuição alemã. Como não basta estar escrito para valer, as mulheres aqui não estão imunes. Elas também sofrem discriminação, assédio e violência. 
 
Segundo a associação Frauen gegen Gewalt (Mulheres contra a violência), a violência caracteriza-se de diversas formas: de xingamento a ameaças; de espancamento a estupro. Não dá para fazer um perfil das vítimas porque todas as mulheres são atingidas, independente de classe, nível escolar ou cultural.
 
Um estudo realizado pelo Ministério da Família, Idosos, Mulheres e Jovens mostra que 40% das mulheres acima de 16 anos já sofreram algum tipo de agressão física e/ou violência sexual. São cerca de 8.000 denúncias de estupro por ano. A violência psicológica atinge 42% das mulheres. No topo da lista fica o assédio sexual, atingindo 58% das mulheres. A violência é na maioria das vezes praticada por pessoas muito próximas: familiares, amigos ou colegas de trabalho.

Culturas diferentes

Diria que as mulheres têm uma boa condição na Alemanha, ou no mínimo, muito melhor que em vários outros lugares do mundo. Há liberdade para escolha de profissão, orientação sexual e estilo de vida. Matrimônio forçado, crime de honra, apedrejamento e levar chibatadas em praça pública é crime e é repugnado pela sociedade.

A liberdade de ir e vir é grande. Aqueles ‘conselhos’ que de alguma forma limitam vestuário, local frequentado e horário para circular pelas ruas, eu confesso que nunca ouvi e nem sei de amigas que tenham ouvido esse tipo de coisa. Como mulher, ando tranquila por aqui. Pode ser que eu tenha tido uma enorme sorte até agora, mas sinto um respeito grande por parte dos alemães.

Os homens aqui, em geral, são discretos e tomam cuidado com os comentários que fazem. Nem pense que alguém vai gritar no meio do rua algo como ‘Gostosa!’ ou coisas do gênero. Comer com os olhos, ficar babando, puxar os cabelos, assobiar, passar a mão, tirar sarro no transporte público são coisas raras aqui. Até mesmo numa paquera, não tem essa de já chegar e sair pegando ou tocando na pessoa. 

Talvez seja por tudo isso que as histórias de assédio que agora estão aparecendo surpreendam. Parecem casos de um outro filme…

2 Responses to “Assédio ou não?

  • Lu, interessante tudo isso que voce escreveu, mas sabe o que me chama atenção, é que levam a serio TUDO isso, eleição, moral e direitos.
    Veja bem como tratam o assunto…
    Legal o post!
    beijosssss

  • Pois é, Ana, exagero da jornalista ou não, o fato é que se discute; tentam rever limites e estabelecer o que é aceitável ou não para esta sociedade.

    Nos últimos anos, houve o caso de plágio na tese de doutoramento de Guttenberg, o então Ministro de Defesa, e o caso-Wulff envolvendo o então presidente num escândalo de corrupção e uso inapropriado do dinheiro público. A pressão foi grande e os dois se demitiram do cargo.

    Ainda é inaceitável para a maior parte da população que um representante do povo não tenha um mínimo de seriedade e respeito 😉

    Bjs,
    Lu

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *