Tacheles

Este ano, setembro não vem trazendo só o outono. Ele trouxe também o encerramento das atividades do Tacheles1, uma ruína que foi transformada em centro de arte e cultura alternativa em Berlin.
Em média, 500 mil pessoas visitavam o local anualmente, atraídas pela possibilidade de ver e apreciar a arte no sentido mais abrangente da palavra.

Tacheles: uma ruína?

Entrada principal do Tacheles

©Cerveja e Salsicha | Entrada principal do Tacheles

O Tacheles não era apenas uma ruína conservadinha para a visitação entre 10 e 16 horas de terça a domingo. Não tinha chão de mármore nem banheiro com metais brilhantes. Não tinha escada de emergência nem elevadores. Porém, tinha vida naquele lugar. Uma vida que foi se adaptando, encontrando uma forma de ocupar o espaço em ruínas.
Era todo grafitado, com muitas colagens pelas paredes. Tinha cheiro de umidade, de tinta e, em alguns cantos, de urina também. O local era uma mistura visível de gente, idiomas e estilos.
Nos momentos com menor fluxo de visitantes, dava para observar os artistas em pleno processo criativo ou bater um papo com eles. No Café Zapata, tinha shows das bandas mais variadas. Para uma conversa, o bar no quinto andar era mais apropriado. O janelão (particamente sem vidro) oferecia um panorama legal da cidade.

De galeria comercial a casa de artes

Área ocupada pela antiga galeria comercial

Área ocupada pela antiga galeria comercial

Entre 1907 e 1908, foi construída uma galeria comercial com cinco andares, a segunda maior da cidade, que recebeu o nome de Friedrichstraßenpassage, pois ligava as ruas Friedrichstraße e Oranienburger Straße. Pouco tempo depois da inauguração a galeria foi comprada e reinaugurada como a loja de departamento Wertheim. O complexo passou ainda pelas mãos da AEG e do Partido Nacional Socialista.

Parcialmente destruído após a Segunda Guerra Mundial, o prédio passou a ser utilizado por pequenos comerciantes e artesãos. No local teve ainda escola, agência de turismo, curso e cinema, mas parece que ninguém se preocupou em restaurar o prédio. Lógico que ele foi se deteriorando.
Com isso, ficou decido que seria demolido em duas fases. A primeira aconteceu em 1980 e destruiu a parte que ficava voltada para a Friedrichstraße. Pouco antes da segunda parte ser destruída, em 1990, um grupo de artistas, Künstlerinitiative Tacheles tomou conta do prédio, impedindo sua demolição. O nome do grupo passou então a denominar o local.

De 1990 a 2012

Ao longo das duas décadas (e mais um pouquinho) de vida, o Tacheles abrigou ateliers, galerias, bares, salão literário, teatro e cinema.
O destino do prédio sempre esteve – em maior ou menor grau – na corda bamba. O Tacheles se encontra no Mitte, numa área muito valorizada. Como se pode imaginar, governo, investidores e artistas tinham planos muito diferentes para o local. Em 1998, a área foi comprada e foi feito um contrato de uso do prédio que valeu até final de 2008.
Os últimos três anos e meio foram mais incertos do que nunca. Em abril de 2011, foi anunciado que o prédio seria finalmente fechado. Vários encerraram suas atividades no Tacheles, entre eles o cinema e o Café Zapata.
E no dia 4 de setembro, o Tacheles chegou ao fim.

O futuro do local

Não precisa ter bola de cristal para saber o futuro da área. Mais um prédio com luxuosos apartamentos e escritórios vai subir no local e provavelmente um shopping centre. Nada de diferente do que se possa encontrar em qualquer outra parte do mundo.
Para quem chamava o local de ‘ruína de lixo’, a demolição do prédio está sendo comemorada. Acho uma pena! Ainda prefiro a ruína a mais uma infinidade de cadeias de fast food, de cafés, de lojas de roupas, tudo amontoado sem o mínimo toque pessoal. Com o encerramento do Tacheles, Berlin perde  sim algo que era muito característico da cidade e que não pode ser simplesmente substituído.

1Tacheles é uma palavra do iídiche (v. Duden). A expressão Tacheles reden significa dizer alguma coisa com todas as letras; dizer a verdade sem floreios.

10 Responses to “Tacheles

  • Aiaiaia esse blog me deixa com uma vontade doida de conheçer Berlin, suas dicas são tudo de bom!1
    Um abração!

  • Obrigada, Renata. Não fique na vontade, venha conhecer 🙂 Pena que o Tacheles agora é só lembrança… rola no máximo umas fotos da fachada.
    Bjs,
    Lu

  • nunca ouvi falar desse lugar, mas fiquei triste por ele ser destruído! vai entender…e tenho a mesma sensação que a Renata: cada vez que entro aqui tenho mais e mais vontade de voltar em Berlim! Fiquei lá por dois dias apenas, fiz só os programas turísticos mesmo, da próxima ver quero explorar mais hehe

    um abraço!

  • Volte sim, Marcela! Até porque em dois dias não dá pra fazer muita coisa. Bem, acho que a próxima vez está cada vez mais viável, né? 😉
    Bjs,
    Lu

  • Oi, Lu, seu blog é muito bom. Pela descrição que fez, vejo que é mesmo uma pena que um prédio histórico e que já abrigou tantas coisas ligadas às artes acabe demolido. Podiam reformá-lo e fazer um espaço cultural. Bom, estou gostando de ler sobre suas experiências em Berlim e, é claro, dá mesmo vontade de conhecer. Um abraço, e obrigada pela visita lá no blog. Apareça! 🙂

  • Que trite né…
    Ivan estará em Berlin semana que vem… mas nem sei se irá conhecer alguma coisa, irá a trabalho… eu ainda ficarei na vontade… 🙁
    beijossss e bom fim de semana amorê!!!

  • Vai ficar na vontade, Ana? Olha minha idéia brilhante kkkk: o Ivan trabalha e você e Valentina passeiam 🙂
    Ótimo fim de semana pra vocês!
    Bjs,
    Lu

  • Obrigada, Hannah! Que bom que você está gostando!
    Pois é, parece mesmo que a demolição é o destino do Tacheles. O pior é ver um elefante branco (mais um!!) construído no seu lugar.
    Grande abraço,
    Lu

  • Nossa! Este lugar parece ter sido muito rico em cultura e diversidade. Que triste não existir mais. As vezes não valorizamos as coisa que temos, é mesmo uma pena. Eu gostaria de conhecer uma galeria de arte assim, diferente e até maluca!!!

  • Oi, Nadja
    Tudo bem?
    Com todos os prós e contras, altos e baixos acho que o Tacheles influenciou muita gente dentro e fora da Alemanha; marcou uma época. A esperança é que outros locais com idéias diferentes consigam sobreviver 😉
    Bjs,
    Lu

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *